Enzo Potel Quaglio nasceu numa manhã ensolarada de domingo, 25 de novembro de 1984. Mas não nasceu com a esperança, a alegria, o sonho, a exposição imediata dos sentimentos, a capacidade do revide depois da agressão, a calma. Ele veio com a inquietação do coelho de Alice no país das maravilhas. Num berçário em que doze mulheres pariam suas dores, Enzo foi o último a dar o berro diante do inevitável. As pessoas ao me visitarem perguntavam “onde está o bebê?”. E a avó materna já se antecipava: “ali, o mais feio do berçário”. Com o tempo, realmente o feio se transformaria em belo.
Cresceu dando sinais da contrariedade. Engatinhava de ré. Demorou muito para andar. Se sentado, não levantava; se em pé, não sentava. Caía como um tronco: “madeeeeiraaaaa!”. Era alérgico a leite, era alérgico à vida. Era um menino assustado. O mundo ao seu redor já não lhe era confortável.
Não gostava de futebol. Preferia os livros, os desenhos, os mapas - onde muitas vezes procurava o pai, um homem à deriva, sempre ligado ao mar. Um homem que se expressava por cartas, assim seus defeitos ficavam mais enevoados e defensíveis.
Na adolescência, Enzo me acorda para verdades que eu julgava saber naturais, mas que meu coração desconhecia. No fim dela, saindo de casa, ele deixou um vazio que foi preenchido por uma inundação de novos saberes. E Afeganistão fala justamente desta época de perdas absolutas de meu filho. Não só de uma mãe livre para amar (por ter dado prioridade ao preconceito), mas também foi nesse período em que nasce uma profunda descrença na religião em que foi criado. Diante da derrocada destes pilares fundamentais da sua existência, ruíram as possibilidades deste ser em manter uma estrutura que acreditasse em momentos felizes.
Diante desta implosão, no meio dos escombros, inicia-se uma busca por Cura. E a vivência do caos é culminada por uma paixão cristalizada em uma única noite – carregada de perfeição e enganos. Surge então um sentimento duradouro e dolorido, obstinado e obsessivo; e que mesmo com o fechamento da última página de Cura, não soube acabar.
Assim nasce Conto de Facas, uma obra onde o atormentado se torna um observador-questionador da própria tormenta, e pela exaustão se entrega ao fluxo das marés. E essa entrega se dá pelo exílio, e Enzo não gosta de ser arranhado em seu silêncio. Seu silêncio é criador, protetor, tradutor. É nele que Enzo é capaz de encontrar, no inverno de uma praia desabitada, um menino molhado e machucado com uma enorme estrela do mar agarrada a seu rosto...
Cresceu dando sinais da contrariedade. Engatinhava de ré. Demorou muito para andar. Se sentado, não levantava; se em pé, não sentava. Caía como um tronco: “madeeeeiraaaaa!”. Era alérgico a leite, era alérgico à vida. Era um menino assustado. O mundo ao seu redor já não lhe era confortável.
Não gostava de futebol. Preferia os livros, os desenhos, os mapas - onde muitas vezes procurava o pai, um homem à deriva, sempre ligado ao mar. Um homem que se expressava por cartas, assim seus defeitos ficavam mais enevoados e defensíveis.
Na adolescência, Enzo me acorda para verdades que eu julgava saber naturais, mas que meu coração desconhecia. No fim dela, saindo de casa, ele deixou um vazio que foi preenchido por uma inundação de novos saberes. E Afeganistão fala justamente desta época de perdas absolutas de meu filho. Não só de uma mãe livre para amar (por ter dado prioridade ao preconceito), mas também foi nesse período em que nasce uma profunda descrença na religião em que foi criado. Diante da derrocada destes pilares fundamentais da sua existência, ruíram as possibilidades deste ser em manter uma estrutura que acreditasse em momentos felizes.
Diante desta implosão, no meio dos escombros, inicia-se uma busca por Cura. E a vivência do caos é culminada por uma paixão cristalizada em uma única noite – carregada de perfeição e enganos. Surge então um sentimento duradouro e dolorido, obstinado e obsessivo; e que mesmo com o fechamento da última página de Cura, não soube acabar.
Assim nasce Conto de Facas, uma obra onde o atormentado se torna um observador-questionador da própria tormenta, e pela exaustão se entrega ao fluxo das marés. E essa entrega se dá pelo exílio, e Enzo não gosta de ser arranhado em seu silêncio. Seu silêncio é criador, protetor, tradutor. É nele que Enzo é capaz de encontrar, no inverno de uma praia desabitada, um menino molhado e machucado com uma enorme estrela do mar agarrada a seu rosto...
