27 de fevereiro de 2009

Prefácio para Conto de Facas, de Idelma Potel

Enzo Potel Quaglio nasceu numa manhã ensolarada de domingo, 25 de novembro de 1984. Mas não nasceu com a esperança, a alegria, o sonho, a exposição imediata dos sentimentos, a capacidade do revide depois da agressão, a calma. Ele veio com a inquietação do coelho de Alice no país das maravilhas. Num berçário em que doze mulheres pariam suas dores, Enzo foi o último a dar o berro diante do inevitável. As pessoas ao me visitarem perguntavam “onde está o bebê?”. E a avó materna já se antecipava: “ali, o mais feio do berçário”. Com o tempo, realmente o feio se transformaria em belo.
Cresceu dando sinais da contrariedade. Engatinhava de ré. Demorou muito para andar. Se sentado, não levantava; se em pé, não sentava. Caía como um tronco: “madeeeeiraaaaa!”. Era alérgico a leite, era alérgico à vida. Era um menino assustado. O mundo ao seu redor já não lhe era confortável.
Não gostava de futebol. Preferia os livros, os desenhos, os mapas - onde muitas vezes procurava o pai, um homem à deriva, sempre ligado ao mar. Um homem que se expressava por cartas, assim seus defeitos ficavam mais enevoados e defensíveis.
Na adolescência, Enzo me acorda para verdades que eu julgava saber naturais, mas que meu coração desconhecia. No fim dela, saindo de casa, ele deixou um vazio que foi preenchido por uma inundação de novos saberes. E Afeganistão fala justamente desta época de perdas absolutas de meu filho. Não só de uma mãe livre para amar (por ter dado prioridade ao preconceito), mas também foi nesse período em que nasce uma profunda descrença na religião em que foi criado. Diante da derrocada destes pilares fundamentais da sua existência, ruíram as possibilidades deste ser em manter uma estrutura que acreditasse em momentos felizes.
Diante desta implosão, no meio dos escombros, inicia-se uma busca por Cura. E a vivência do caos é culminada por uma paixão cristalizada em uma única noite – carregada de perfeição e enganos. Surge então um sentimento duradouro e dolorido, obstinado e obsessivo; e que mesmo com o fechamento da última página de Cura, não soube acabar.
Assim nasce Conto de Facas, uma obra onde o atormentado se torna um observador-questionador da própria tormenta, e pela exaustão se entrega ao fluxo das marés. E essa entrega se dá pelo exílio, e Enzo não gosta de ser arranhado em seu silêncio. Seu silêncio é criador, protetor, tradutor. É nele que Enzo é capaz de encontrar, no inverno de uma praia desabitada, um menino molhado e machucado com uma enorme estrela do mar agarrada a seu rosto...

24 de janeiro de 2009

E parra quem ficarrá o que ajuntaste?

(coloco aqui minha crônica preferida da Hilda Hilst – essa inclusive não se encontra na net, isso aqui é um presente para os leitores assíduos deste blog!)

Venho atrravés de meu aparrelho, senhorra Hilst, que está adorrmecida em posizon de lótus, mas psicocrrafando meu mensagem, dizerr-lhes que o aparrelho prreciza de dinheirras parra pagarr imposto PETÙ e, parra supostas velhacas amicos que emprrestarrom dinheirras e agorra ameaçam matarr aparrelho, que aparrelho está perrigosamente abstêmia porr falta de dinheirras e que editorras son canalhas porrque uma querr picotarr e jogarr na ponte livrros da referruda senhorra-aparrelho e outrra, frrancesa, grrande Gallimard pagarr mijarrias e outrra, italiana, Sonzogno, non pagarr, e amicos rricus que aparrelho tinha non querrem mais falarr com referruda senhorra-aparrelho porque está velha e non mais tetuda, que serr muito trriste vida obscurra em ton rarra criaturra ou vida miserrável em serr ton amigável, que aparrelho prrecisa dentadurras durras, prrecisa dolláres, porrque semprre acrreditarr em prrimazia de verrdes notas ainda que estejam em baixarria, ourro também pode serr, cordons, correntinhas brrrilhantes também poderr serr, que referruda senhorra-aparrelho querrer venderr terrinhas, mas aparrecerr pessoas de vilania que non querrer pagarr, que imaginam escrritorres como burricos que non saberr contarr, que dedos de escritorra eston sangrrando de tanto trrabalharr, que aparrelho querrerr venderr sua choça porr um milion de dolláres parra serr “casa de escritor” e ela-aparrelho poderr ficarr lá até baterr as botinas o que falta pouco porrque senhorra-escrritora gostarr muito de beberr e de pitarr, que podem mandarr também escoceses, non homens, mas garrafas, porrque senhorra-aparrelho terr noxo de humanidade e de homens principalmente, que son torrpes e avarros con coitodinhas velhinhas que non poderr mais fornicarr porrque... porrque son velhinhas. Que se fizerrem essas delicatessen com escrritorra eu, senhorr doutorr Fritz, arranjarrei um lugarr aqui em cima parra vossas magrras alminhas, porrque Fritz conhecerr Deus que é sobrrinho e afilhado de um outrro aqui que está chifrrudo ao meu lado e este serr meu amigo de há muito já expulsado do paradiso, mas até hoje muito bem frreqüentado. Favorr mandarr cheques parra esse pobrre jornal que também pagarr muito poco parra aparrelho-ilustrre e trriste com falta de dinheirras. Que aparrelho pensarr eu non escreverr nunca mais parra nenhum dono de livrros letrras jornais porrque non é de ferro. Senhorres rricas velhinhos: mães nos bolsos porr favorr! Aparrelho agorra acorrdarr e pedirr parra falarr e Fritz non deixarr porrque non erram palavrras de amorr, erram aquelas noxentas que non se podem exporr. Gute Nacht!

(extraído de Cascos & Carícias & Outras Crônicas, pág. 251).

22 de janeiro de 2009

Volúpia, da Cia Carona de Teatro

(A Maria Gonçalves Salles é a melhor crítica de arte em Itajaí. O enfoque que ela dá aos textos é sempre incisivo; coloco aqui, com grande atraso, o que ela achou da peça Volúpia- novembro de 2008)

"Nesta última terça-feira tive a honra de assistir no Municipal de Itajaí a peça “Volúpia”, da Cia Carona de Teatro (Blumenau). Já tinha sido avisada pelo burburinho das mesmas pessoas que sempre esbarram-se nos eventos culturais da região que a peça teria cenas de nudez. Não me senti acuada.
Após as filas dispersas alinharem-se na subida de carpete cinzento, sentei-me com Renatinha Bukowski (que me confidenciou a estréia de sua peça “Ufo” mês que vem no Centreventos de Joinville) e apagaram-se as luzes.
Logo no início pude notar que meu cóccix não se afeiçoou ao design da cadeira que o Municipal oferece. Minha coluna rapidamente projetou-se para frente a fim de visualizar o celular de uma moça muito elegante da segunda fila, no modo silencioso.
Notei que a protagonista da peça era uma moça a quem emprestei trinta reais em 1997. Mas isso não me desviou da trama. Todos estavam muito bem. No final, achei que a cor da cortina não era a adequada. Por que não optar por um verde season, para fechar com as variantes frias da cochia?
No final, fomos ao Mercado Velho tomar um drink e terminamos por discutir os aspectos positivos que a Cia Carona conseguiu nessa adaptação virtuosa do texto de S.Urda Krueger."

Maria Gonçalves Salles, para o Teatro em debate

21 de janeiro de 2009

Concursos literários

(Você sempre vai tentar um)

Mandei esse mail para a comissão organizadora do prêmio Cruz e Souza (que este ano só possui uma categoria - romance):

"Olá,
gostaria de saber o que a comissão julgadora do prêmio considera "romance" (se é por número de páginas, estilo, simpatia, etc)
Aguardo a resposta
obrigado
Enzo"

A resposta:

"Olá Enzo,
É um prazer receber o seu e-mail. Obrigada!
Oficialmente, o Romance é considerado uma narrativa ficcional que pode ou não ser baseada em fatos reais.
Não há limites, inferior nem superior, de laudas. Cada autor é livre para conceber sua história. Com relação ao tamanho da página, siga o padrão A4. As outras formatações ficam ao seu critério. Preocupe-se, pois, em propiciar uma leitura tranquila aos membros do júri."

??????

"Dois patinhos foram passear..."

19 de janeiro de 2009

Eu estava passeando pelo livro “Serial Killer” (da brasileira Ilana Casoy), uma mini-enciclopédia sobre os assassinos em série mais famosos do mundo, e acabei sentindo uma afinidade com Dennis Andrew Nilsen. Ele matou em torno de dezesseis pessoas num período de cinco anos, em geral mendigos ou caras que ele conhecia em bares gays e convidava para ir à casa dele. Quando eu li que ele matou um skinhead então, aí eu já entrei em contato com o fã clube dele imediatamente e ganhei minha carteirinha. Há detalhes muito interessantes não só sobre sua personalidade, mas por exemplo o fato de que quatro pessoas que conseguiram fugir dele e o denunciaram à polícia, não tiveram nenhum tipo de retorno das autoridades, que consideraram os incidentes (ser estrangulado com um fone de ouvido) “briga doméstica”. Mas ele não perseguia ninguém depois.
Adivinha qual era o apelido dele? “Des”. Quase berrei na livraria.
Gosto muito de uma passagem sobre sua infância (pág. 257), onde a gente pode perceber que neste mundo há maluco de tudo quanto é tipo:
“Quando estava com 8 anos, quase morreu afogado no mar. Foi resgatado por um garoto mais velho que brincava na praia e, enquanto estava desacordado na areia, o garoto tirou suas roupas e se masturbou sobre ele. Nilsen só soube o que houve quando acordou e viu o esperma do rapaz sobre sua barriga”.
Parece poesia, né? Salva nossa vida e fica gozando com a gente depois.

14 de janeiro de 2009

Receita antitédio carnavalesco

(Hilda Hilst)

Pegue um nabo. Coloque duas ou três palavras dentro dele, por exemplo: bastão, ouro, amplidão. Chacoalhe. Você não vai ouvir ruído algum. É normal. Aí ajoelhe-se com o nabo na mão e diga:

Com o bastão que me foi dado
Com o ouro que me foi tirado
E sem nenhuma amplidão
De conceitos e dados
Quero renascer brasileiro
E poeta.

Quem te ouvir vai ficar besta.

12 de janeiro de 2009

Alice no país das travestis

Eu escrevi esse textículo em 2007, transcrevendo um diálogo que tive com um cobrador de ônibus em São Paulo sobre uma coisa que nunca entendi. Acho digno.

Amigo, uma pergunta. Como é que o último motorista de ônibus faz para ir pra casa? Na garagem um reservado espera os motoristas de todas as linhas. Nossa, um ônibus só com motoristas. E vai levando de casa em casa? Não, vai parando de ponto em ponto. Eu pego três reservados para chegar em casa. Uau, um motorista descendo num ponto. Mas. Mas como é que o motorista do reservado faz para ir para casa?

Já é de manhã.

8 de janeiro de 2009

Gata da enchente 2009

Devido aos atrasos do tradicional Garota Verão aqui de Santa Catarina, decidi criar esse prêmio (e eu ainda estou criando o prêmio Chiuaua de Poesia). Mas enfim, aqui vão as candidatas:

Josiany, de Itajaí
Essa gatinha de 29 anos teve dois metros de água invadindo sua casa. Perdeu o celular, uma cama rosa, uma tiara, todas as roupas e dois pares de sapato. Ainda sonha em encontrar sua agenda.

Kathlen, de Ilhota
A loira mais vistosa do Morro do Baú tem apenas 23 anos. Foi encontrada com vida e puxada pelos cabelos em meio ao barro que soterrou sua casa. Perdeu tudo.

Gisleine, de Blumenau
Essa belezura de 19 anos teve apenas um metro e meio de sua casa invadida pelas águas. Gisleine gosta de caminhadas, de tirar os cogumelos que estão nascendo na parede de seu quarto e de pedir a sua mãe para fritá-los.

Dayla, de Florianópolis
Pessoal: Florianópolis não passou por nada, Florianópolis não fica no Vale do Itajaí, não há rio para subir naquele lugar! É uma ilha!!! Embora a Globo só mostrasse o estrago das chuvas no sul ao vivo lá (“Vejam, esse barranco deslizou invadindo a estrada e essas pessoas estão há mais de duas horas presas neste engarrafamento”).

4 de janeiro de 2009

Informe-se


Eu tenho feito minhas pesquisas para o livro infantil sobre suicídio, e acabei caindo num ensaio de Clarice Lottermann, "O suicídio na literatura infantil brasileira”. Gostei demais porque é um material quase inexistente para estudo, e ela se concentrou nos trabalhos de Lygia Bojunga e foi deliciosamente obrigada a transcender a pesquisa: falou sobre o sentido da vida na escrita. Primeiro porque sustenta a definição de Platão sobre a escrita como phármakon (o algo que é remédio e veneno ao mesmo tempo). Assim, nasce o trecho mais luminoso do estudo:

No conto “A troca e a tarefa”, há um apagamento da possibilidade da escrita, pois, para a personagem, continuar a viver implica parar de escrever. Nesse impasse, o que é mais importante: viver ou escrever? (...) A obstinação pela arte leva à desistência da vida – antecipação da morte iminente – numa recorrente tensão entre vida, arte e morte. Nessa tensão, não há um pólo necessariamente positivo: se à morte se pode associar o pólo negativo e à vida o pólo positivo, na medida em que, para permanecer viva, a escritora precisa abrir mão de sua capacidade criadora, o pólo positivo também se reveste de carga negativa uma vez que, sem arte a vida equipara-se à morte. Assim, optar pela vida significa optar pela morte.

1 de janeiro de 2009

Fim?

É estranho, mas acho que o livro acabou.
Eu jurava que ia continuar escrevendo até 2010, mas sinto que não tenho mais nada para falar com o espírito do livro.
Eu lembro que entre o último poema escrito para Afeganistão e o primeiro escrito para Cura, eu fiquei quase um ano sem escrever poesia. E entre o Cura e o Conto de Facas não houve intervalo, fiquei até confuso na época para saber onde acabava um e começava outro. Sinto que os dois são irmãos siameses.
É isso. Continuarei por aqui, desaguando outras coisas.
E já pedi para minha mãe escrever o prefácio. Eu queria alguém que falasse de mim distante da poesia, e quem sabe, encontrasse a poesia lá.

15 de dezembro de 2008

Barba Azul

- Você está mais maduro.
- Maduro seria parecer que não preciso mais de você?

Eu sou uma lebre. E gosto de ouvir meus passos descendo a escada em caracol. O silêncio do futuro. Óh, estão todas tão quietas. Medo de quê? Não, não precisa me dizer que o que eu desejo para os outros vai acontecer comigo, já me aconteceram coisas incríveis quando eu quis o bem. E Você. Você reveio até mim. Para conhecer a estrela que nasce com o fim da esperança. Veio conhecer o novo homem, que está no corpo daquele que se afastou quando você jogou um trem de pérolas no oceano. O homem que te venceu numa batalha em que você nem esteve presente. O que é necessário para vencer você, você se pergunta. Você precisa conhecer isso. E eu nem precisei pedir para você entrar nessa gaiola: o ego te fez pézinho. Olhe-me. Não ser reeleita incomoda você? A Aids incomoda você? Chegar em casa com a casa esturricada incomodou você? Não, eu não te desejei o mal, eu te desejei a Vida. Óh, você está empalidecendo, empalada na imagem que criou.

Saio da alcova lebremente. Eu adoro mentiras, sabe por quê? A gente sempre se torna aprendiz do nosso algoz. Então me acompanhe, escritor. Me observe. Gritando saltitante pelos corredores do castelo

eu matei Miacílios Árvila

eu matei Miacílios Árvila.

11 de dezembro de 2008

Caçador

Ele cheira
a masculinidade
que há em si.

E não dá para saber
se fica excitado
com a mulher que está na cama

ou com o homem

que por coincidência
é ele ali.

E se for com outro

não dá para ouvir
um gemido

que todo o castelo de areia
se desmancha
nos seus pubianos.

Quer que a mamãe
traga de novo a pazinha?

Olha, a gente pode
modelar uma mentira
bem bonitinha agora

onde o mais forte
não dá

dói.

10 de dezembro de 2008

O Enterro do Conde Orgasmo


Pessoal, notícias nada alvissareiras no submundo da arte. Com a enchente, o Fodí perdeu TODAS as telas da exposição agendada para o ano que vem, que iria se chamar “O Enterro do Conde Orgasmo” - uma homenagem às obras que mais influenciaram a vida dele em pintura, escultura e literatura. A Viola é um anjo: guardou um esboço que o pai tinha jogado fora. Chegou no ouvido dele e disse: “uma só semente contém mil florestas”, e entregou o papelzinho. O Fodí não conseguiu esconder as lágrimas, igualzinho ao esboço (“Kublai Khan sobre as almofadas”, a homenagem dele para As Cidades Invisíveis, do Ítalo Calvino). E engraçado que a menina há algum tempo guardou na cabeça uma conversa que eu tive com o Fodí, onde eu disse que muita gente por aí se esconde nos poemas. Daí ela veio agora com o dedinho da nossa cara: “na próxima enchente vai todo mundo sentar na mesa e escrever pelo menos um haikai! E ajudem o papai a colocar os quadros no poema dele!”

1 de dezembro de 2008

O Patinho Feio

Veja

eu ganhei uma nova família.

Ganhei também uma mancha
escura

sobre tudo o que se aproxima

mas que um dia
me deu as costas

porque

entre ser infeliz

e ser infeliz
amigo seu

eu

já fiz a
minha escolha.

E me desprendo
de árvores velhas

aprendido de que

maduro

é um pêssego

nunca um ser humano.

E deixo sair assim

o medo de morrer

infantil.


28 de novembro de 2008

Itajaí-Açu

Parece que foi ontem
que a grande enchente
cobriu a cidade de Ilhota
quase que totalmente.

E como se nada
tivesse acontecido
inúmeras casinhas
voltaram a florescer
às margens do rio
Itajaí-Açu.

O Ser-Humano
não se represa.

(do meu livro Cura, pág. 22 - quando a enchente de 1983 era só uma história que garoava nos ouvidos)